O Instituto de Pesquisa Scripps, na Califórnia, em conjunto com a IAVI, organização de pesquisa científica sem fins lucrativos, divulgaram os resultados da fase 1 de testes em humanos de uma vacina contra o HIV.

As descobertas, até então, são extremamente positivas: a vacina conseguiu estimular a produção das células raras e necessárias para gerar anticorpos contra a HIV em 97% dos participantes. Na fase 1 dos testes clínicos, 48 voluntários adultos e saudáveis receberam placebo ou duas doses do imunizante, junto com um adjuvante desenvolvido pela GlaxoSmithKline, empresa farmacêutica britânica.

Vale ressaltar que o ensaio clínico foi pequeno e os resultados ainda não foram publicados em qualquer periódico científico. Ainda em fase 1, muitos mais testes terão que ser realizados até conseguir a vacina final. Mesmo assim, as novidades divulgadas soam promissoras, tanto para o público quanto para os cientistas que participaram do estudo.

De acordo com dados da IAVI, em 2019, 38 milhões de pessoas no mundo viviam com HIV ou aids e 1,7 milhão foram contaminadas só naquele ano. Desse total, 33% não têm acesso ao tratamento necessário e podem, consequentemente, infectar outras pessoas.

Como funciona a vacina do HIV?

Atualmente, existem mais de 20 vacinas contra o HIV em fase teste. A que está na fase 1 dos testes clínicos desencandeia a ativação de células B em sua primeira fase, por meio de um processo chamado direcionamento da linha germinativa. Ao todo, a vacina é um processo de várias etapas para induzir a produção de tipos diferentes de “anticorpos amplamente neutralizantes” (mais conhecidos como bnAbs).

“Nós e outros postulamos há muitos anos que, para induzir bnAbs, você deve iniciar o processo ativando as células B certas”, diz o Dr. William Schief, um professor e imunologista do Instituto Scripps. As células B têm propriedades especiais que lhes dão potencial para se desenvolverem em células secretoras de bnAb, induzindo-as. Porém, apenas cerca de 1 em um milhão delas irão fazer isso, de acordo com Schief.

A produção de bnAbs é visto como um “Santo Graal” na comunidade científica. A esperança é que essas proteínas sanguíneas irão se ligar às proteínas de superfície do HIV — as chamadas espículas, que permitem a entrada do vírus nas células humanas, assim como no coronavírus — e desativá-las pelas regiões que são difíceis de acessar.

“A proteína espicular do HIV é muito mais tortuosa”, diz Schief. Como resultado da rápida mutação dos genes que formam a espícula, o HIV tem milhões de cepas diferentes. Devido a isso, é improvável que os anticorpos contra uma cepa neutralizem as outras. “E assim o HIV não é realmente um vírus. São realmente 50 milhões de vírus diferentes em todo o mundo agora.”

Descobertas da última década serviram para a vacina

Quando se fala do combate ao HIV, as abordagens que a comunidade científica tem para “vacinas tradicionais” não podem ser usadas. Existem especialmente três fatores que dificultam a produção de imunizantes para o HIV: 1) nunca houve alguém que conseguiu eliminar a doença do seu corpo de forma natural; 2) o vírus tem uma variabilidade genética sem precedentes e 3) sua infecção é feita de forma rápida e dura para o resto da vida.

De primeira, os cientistas da IAVI buscavam imunógenos capazes de ativar uma resposta imune de anticorpos e das células T. Após uma década de esforços, dois avanços científicos fizeram com que o direcionamento fosse outro.

A primeira descoberta foi identificada em 2009. Em 2009, bnAbs potentes foram encontrados em indivíduos infectados pelo HIV e posteriormente isolados. A equipe analisou como os anticorpos interagiam e neutralizavam o vírus em testes e, eventualmente, conseguiram identificar pontos vulneráveis nele.

Com esse avanço, os cientistas da IAVI começaram a projetar imunógenos de vacinas, com objetivo de eventualmente refinar e melhorar as vacinas candidatas. O primeiro deles (eOD-GT8 60mer) levou a vacina que está hoje na Fase I dos testes clínicos.

O segundo desenvolvimento científico identificado foi entender mais sobre o alvo de todos os bnAbs: a proteína mais externa do HIV, conhecida como “HIV Envelope”. Antes, sua estrutura instável dificultava o estudo dos cientistas, mas, agora, após décadas de avanço, pesquisadores estão desenvolvendo e testando imunógenos de vacinas projetadas para se parecerem com a estrutura real do envelope do HIV.

Qual seu impacto na comunidade científica?

Para o Dr. Schief, o primeiro estudo de sucesso da vacina contra o HIV é a prova de que ele pode futuramente ser aplicado a outros patógenos também. “Com nossos muitos colaboradores na equipe de estudo, mostramos que as vacinas podem ser projetadas para estimular células imunes raras com propriedades específicas e esta estimulação direcionada pode ser muito eficiente em humanos”, afirmou.

A equipe de cientistas acreditam que a gripe, dengueZika, hepatite C e malária podem ser combatidas com a mesma abordagem. Por enquanto, ensaios clínicos adicionais serão realizados para o desenvolvimento da vacina contra o HIV.

“Este ensaio clínico mostrou que podemos impulsionar as respostas imunológicas de maneiras previsíveis para fazer vacinas novas e melhores, e não apenas para o HIV. Acreditamos que este tipo de engenharia de vacina pode ser aplicado de forma mais ampla, trazendo um novo dia para a vacinologia”, disse o Dr. Dennis Burton, professor e presidente do Departamento de Imunologia e Microbiologia da Scripps Research.

No momento, os colaboradores estão firmando uma parceria com a Moderna, responsável por uma das vacinas do coronavírus, para desenvolver e testar uma vacina baseada em RNA mensageiro. De acordo com a equipe, o uso da tecnologia de mRNA poderia acelerar significativamente o ritmo de desenvolvimento da vacina contra o HIV, como aconteceu com as da covid-19.

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